1
Marcelo ficou feliz quando sua mãe lhe disse
que ele e seu irmão iriam visitar os primos, no sítio que o tio deles tinha no
interior. Marcelo ficou feliz e confuso ao mesmo tempo, ficou feliz porque sua
mãe ao lhe dar a noticia demonstrava felicidade, mas o que era um sítio? –
Perguntou a si mesmo. Marcelo não sabia o que era um sítio. Do jeito como sua
mãe lhe falou, pareceu a Marcelo que sítio era um lugar, um lugar que ficava
em algum lugar, pensou. Além disso, o que são primos? Marcelo também não sabia
o que eram primos. Tio, Marcelo sabia o que era: um homem velho que ele podia
confiar, como o tio da perua. “Alguns tios eram BEEEEM VELHOS. Como o tio da
cantina da escolinha”, observou a si mesmo. A mãe de Marcelo estava correndo de
um lado para outro, fazia muitas coisas ao mesmo tempo. Naquele momento,
pareceu a Marcelo que sua mãe estava tentando colocar todas as roupas nas
malas. Todas as roupas dele, todas as dela, e todas as do seu irmão. Marcelo
quis perguntar à sua mãe o que era “sítio” e o que eram “primos”, no momento em
que abriu a boca para perguntar, o telefone tocou. O telefone ficava na sala. A
mãe de Marcelo saiu apressada do quarto para atendê-lo, Marcelo viu quando sua
mãe quase caiu ao tropeçar numa caixa que estava no chão. Depois, olhou para as
malas, elas lhe chamaram a atenção. Já haviam lhe chamado antes. Talvez
quisessem que ele visse algo, talvez só quisessem lhe mostrar algo que só elas
tinham, ou sabiam.
As malas ficavam guardadas na parte
de cima do guarda-roupa, “um lugar perigoso”, dizia sua mãe. A mãe de Marcelo o
proibia de escalar o guarda-roupa, mesmo assim ele já havia tentado. Mais de
uma vez. Isso o angustiava, não gostava quando a desobedecia. As malas ficavam
no alto, e no fundo da montanha, por maior que fosse seu esforço, Marcelo não
as alcançava. Agora elas estavam em cima da cama, sentiu uma enorme curiosidade
em saber do que eram feitas, em saber o que elas tinham por dentro, quais eram
seus segredos intocáveis. Não estavam no “lugar perigoso”, agora, Marcelo
poderia tocá-las. Agora Marcelo iria saber o que as malas tanto queriam.
2
No caminho, de repente se deu conta
de que já não havia tantas casas e prédios. Pareceu-lhe que primeiro sumiram os
prédios, agora só havia casas. E eram poucas. Só havia parques. Que nem o
Ibirapuera pensou. O ônibus em que viajava era muito diferente dos que
conhecia, era muito melhor. Era um ônibus GRANDE, os bancos eram mais bonitos e
confortáveis. “Parecem os sofás de casa”, disse para sua mãe. Sua mãe não
respondeu. Estava dormindo. Ele, Marcelo, não ia dormir: tudo era diferente.
Tudo era novo. Pela janela do ônibus, viu um bicho estranho. O reconheceu. Tinha
uma foto no livro da escolinha, sua professora lhe havia ensinado o nome
daquele bicho. “MÃE, MÃE, UMA VACA! MÃE ACORDA! TEM UMA VACA NA JANELA!”
Gritou, acordando todos que estavam dormindo. Sua mãe o censurou. Outros bichos
apareceram, bichos, inclusive, que ele não conhecia. Queria vê-los todos, não
tirou mais os olhos da janela. Enquanto isso o ônibus viajava. O ônibus ia, ia
e ia...
3
O lugar chamado sítio ficava muito
longe do lugar onde Marcelo morava. A casa desse novo tio ficava no alto de uma
colina. Achou a casa enorme, o quintal era enorme. Para Marcelo, o sítio todo
era um quintal.
Era a primeira vez que visitava seu
tio, Marcelo passou a achar pequena a casa em que morava. O quintal de sua casa
era pequeno, ele podia enxergar o céu, mas havia muros altos de um lado e do
outro, e nos fundos, a parede do vizinho também era muito alta. Marcelo olhava
para o céu, só enxergava uma pequena parte dele. Sua mãe não o deixava brincar
nas ruas à noite. Quando queria observar o céu noturno, fazia isso de seu
quintal. Marcelo gostava de olhar para céu à noite. “É muito mais interessante
do que o céu, do dia”, dizia para sua mãe. Nessa noite, na casa de seu, tio,
era uma noite clara, uma noite com estrelas. Havia muitas, muitas estrelas,
mais do que ele podia contar. Nunca, na sua vida, viu um céu com tantas
estrelas. Como pode? Por que esse céu é melhor? Perguntava-se.
4
Havia noites escuras, noites em que
você não enxergava as estrelas, muito menos nuvens. Marcelo sabia disso. Em
algumas noites, noites chatas, o céu era escuro. Noites onde tudo era escuro.
Nessas noites, Marcelo não enxergava o céu noturno. Mesmo quando tentava, ele
não via o céu. Nessas noites, o céu não existia. Só existia a escuridão. Eram
noites sem vida, noites mortas. Estavam mortas. Eram cadáveres de noites claras
que um dia tiveram vida, e que para piorar, quando morreram, se transformaram
em noites zumbis, noites que vinham se arrastando desde longe, de muito longe,
somente para fazê-lo mijar nas calças de tanto medo. Tais como os filmes de
terror que sua mãe o proibia de assistir.
– É o Dárcio que trouxe esse filme
da escola mãe!
Dárcio era seu irmão mais velho,
algumas vezes, quando Dárcio chegava da escola, trazia consigo alguns filmes
emprestados dos colegas. “Da turma”, explicava Dárcio à sua mãe.
– Pode assistir, é um filme de
super-herói; o cara tem um monte de poderes e os monstros não têm a menor
chance – dizia Dárcio, tentando enganá-lo novamente.
A mãe de Marcelo o prevenira contra
seu irmão: ele só o chamava, porque tinha medo de assisti-los sozinho. Dárcio
só aparecia com esses filmes quando sua mãe se encontrava fora de casa, no
trabalho, o que equivalia dizer o dia todo.
Quando a mãe de Marcelo chegava do
trabalho, ele e seu irmão a ajudavam a preparar a janta. As refeições sempre
eram agradáveis, sua mãe conversava com ele. Também conversava com seu irmão,
mas isso não tinha muita importância. O importante era que ela estava ali, ao
lado dele, Marcelo.
Uma vez, no jantar,
Marcelo perguntou à sua mãe como era o céu, sua mãe, então lhe disse que no
céu, “tudo era infinito”, e que Deus só deixaria ir morar no céu, as pessoas
boas. “As que só praticassem boas ações”. Isso deixou Marcelo preocupado com
seu irmão mais velho: nem sempre ele praticava boas ações. Ele, Marcelo, também
nem sempre praticava boas ações. Isso o deixou aflito. Às vezes, Marcelo e seu
irmão deixavam sua mãe nervosa; seja porque tinham brigado, ou porque não
tinham feito alguma tarefa que ela lhes havia confiado, como por exemplo: lavar
a louça do almoço ou levar o lixo para o lado de fora. Às vezes ela ficava
nervosa, porque eles não haviam feito tarefa alguma. Era o irmão de Marcelo
quem o convencia a não realizar as tarefas combinadas com sua mãe, “A gente faz
mais tarde” ele dizia. O mais tarde era: quando sua mãe chegava do serviço.
Quando a mãe de Marcelo chegava em casa, e via a casa bagunçada, ficava nervosa
e os colocava de castigo. O castigo era sempre ajudá-la a realizar as tarefas
que eles não haviam feito durante o dia. Para Marcelo, isso era um castigo bom,
pois gostava de fazer coisas junto com sua mãe, achava que seu irmão também
gostava de ficar de castigo. Marcelo e seu irmão sabiam que sua mãe sabia
disso; desconfiavam, pelo menos.
Quando Marcelo perguntou à sua mãe
se no céu havia cemitérios, sua mãe sorriu; disse que não, disse que no céu “as
pessoas viveriam para sempre”, e que por isso lá não existia cemitérios.
Marcelo não tinha medo, sabia que não ficaria sozinho. Sua mãe uma vez disse a
ele – e a seu irmão – que “ela sempre estaria com eles, à vida toda. Que nunca
os abandonaria”. Marcelo sabia, quando sua mãe fosse para o céu, ela os
levaria. Sua mãe sempre praticava boas ações.
De vez em quando ela vinha do
trabalho com algum filme que ela comprava do camelô da rua de baixo. Eram
estórias de peixinho perdido, de leão amigo da zebra, querendo fugir do
zoológico. Sua mãe os fazia assistir, ele e seu irmão, ela também. Os três
juntos. Normalmente, ela dormia antes do filme terminar. Mas Marcelo nunca
dormia quando assistia aos filmes que sua mãe trazia. Assistia-os até o fim.
Eram noites de céu noturno-claro, que iam embora cedo, mesmo assim, ele não as
via partindo: sua mãe o mandava dormir. Marcelo obedecia. Quando acordava, o
Senhor Dia já havia chegado, e trocado de lugar com ela, com a Dona Noite. Isso
deixava Marcelo com dúvidas, Marcelo sabia que o céu, provavelmente, não era
uma casa, numa casa moram muitas pessoas, só na dele havia três. Na casa do
Adriano tinha muito mais. Marcelo pensou em quantas pessoas moravam lá, eram
muitas. Elas moravam juntas. Era certo dizer que não estavam sempre juntas; mas
às vezes estavam, ele sua mãe e seu irmão costumavam ficar juntos à noite:
todos dormiam no mesmo quarto. Sua casa só tinha um quarto, e pra falar a verdade,
era muito melhor assim: mesmo nas noites de céu nortuno-escuro, o céu não
parecia tão escuro assim. No céu isso não acontecia. No céu, o Senhor Dia,
fosse qual fosse, nunca o dividia com a dona Noite. A mãe de
Marcelo o havia ensinado que quando era noite, qualquer noite aqui no Brasil,
era dia, qualquer dia, lá no Japão. “Lá onde tem mais japoneses do que na
Liberdade”, ela dizia. “E quando é dia aqui no Brasil, é noite lá no Japão”,
ela continuava. “Igual ao seu emprego mãe: a senhora sai quando termina o dia,
a outra pessoa sai quando termina e noite”. Ah, não é a casa deles, é o
emprego, concluía Marcelo, pensando no senhor Dia e na dona Lua.
5
Marcelo orava ao Papai-do-céu todas
as noites. Oravam juntos: ele, sua mãe e seu irmão. Sua mãe era quem na maioria
das vezes orava pelos três. Ela sempre agradecia por tudo o que o Papai-do-céu
havia dado. Mas também pedia algumas coisas que estavam faltando. Ela sempre
pedia coisas boas e necessárias, ao contrário de seu irmão. Às vezes, por ordem
de sua mãe, era Dárcio quem orava por todos. Dárcio sempre pedia coisas bobas:
bicicleta, vídeo-game, tênis caro, relógio etc. Eram coisas que sua mãe não
podia comprar, além do mais, era coisas realmente bobas e desnecessárias, mas
que, se algum dia o Papai-do-céu achasse que algum daqueles pedidos idiotas do
seu irmão fosse justo, ele Marcelo, também queria receber.
Quando todos estavam deitados e
quando (Marcelo supunha) seu irmão e sua mãe estavam dormindo, Marcelo
continuava conversando com Papai-do-céu, sobretudo nas noites de
céu-noturno-claro. Em pensamento, pedia a Deus que desse a essas noites “muito,
muito tempo de vida”. O máximo que elas pudessem viver. Marcelo não queria
vê-las transformarem-se em noites zumbis, noites de céu-noturno-escuro. Nas
noites de céu noturno-escuro ele balbuciava em silêncio e rapidamente, alguma
coisa para Deus. E tratava de dormir rapidamente.
Algumas vezes, e sempre nas noites
de céu-noturno-claro, depois de silenciosamente conversar com Papai-do-céu, Marcelo
lembrava-se de seu pai. Seu pai era o homem que aparecia nas fotos que sua mãe
lhe mostrava. Todas as semanas. Aquele homem era seu pai. As lembranças que
Marcelo tinha de seu pai eram como aquelas fotos: não eram suas. Não havia sido
ele quem as tirara. Ele as via, imaginava-as. Podia até mesmo tocá-las.
Sonhava-as. Mas não eram suas. Eram lembranças de sua mãe e, até mesmo de seu
irmão. Uma vez Marcelo quis falar com seu irmão, do pai que um dia teve... tiveram.
Seu irmão ficou nervoso, mandou que ele se calasse, e antes que Marcelo
perguntasse o motivo, Dárcio começou inesperadamente a chorar, saiu de casa e o
deixou sozinho, o que era proibido. Dárcio deixou seu irmão de cinco anos
sozinho em casa. Sua mãe, inúmeras, repetidas vezes advertia Dárcio de, jamais,
qualquer que fosse o motivo, deixasse Marcelo sozinho em casa. Naquele dia
quando sua mãe chegou em sua casa, percebeu algo. Depois perguntou a Marcelo,
se havia alguma coisa de errado, se Dárcio havia lhe feito algo de mal.
“Não mãe, o Dárcio não fez nada”, respondeu.
6
O cemitério era um lugar estranho:
não podia correr não podia pular, nem brincar de esconde-esconde atrás das
pedras. Na frente então, ninguém deixava. Marcelo se lembrou de que sua mãe
havia lhe dito que seu pai estava enterrado ali. “Deus levou o papai para o
céu”, sua mãe disse uma vez a ele, quando este perguntou a ela, porque seu pai
estava ali.
Deus? Quem era Deus?
Deus era o Papai-do-céu. Era o papai
de sua mãe, de seu irmão Dárcio, e dele Marcelo. E de seu pai, que havia levado
pro céu. Deus também era o Papai do senhor Dia e da dona Noite.
Uma vez Marcelo estava junto com sua
mãe, assistindo televisão. “Era um programa que tinha gente no lugar de
desenho”. Havia um apresentador fazendo perguntas para uma mulher. “Tinha
também um monte de gente em volta, assistindo dentro da televisão”. A mulher
respondia perguntas feitas pelo apresentador. “No final, ela respondeu a última
pergunta certo e ganhou um monte de
dinheiro”.
Havia ganhado um milhão de reais.
– O que é um milhão de reais, mãe? –
perguntou Marcelo.
– Hum milhão de reais, filho, é
dinheiro pra se tomar muito cuidado.
– Quanto mãe?
– Mais do que qualquer um pode
contar –, ela respondeu.
Como as estrelas do céu, pensou Marcelo.
Deus? Quem era Deus?
“Deus é o céu noturno que se quebrou
em um milhão de pedaços. ELE se quebrou. Eu, meu irmão, somos pedacinhos desse
céu, só que eu sou um pedacinho de céu um pouco mais clarinho do que ele. Minha
mãe é o pedacinho mais brilhante do céu, uma estrela cadente que Deus nos
mandou para dar vida. Na escola aprendi uma vez, que um cometa é um astro
celeste que vem, deixa um rastro de luz, e vai embora. “Alguns cometas como o
cometa Halley, por exemplo, um dia voltam” disse uma vez minha professora do
prézinho. Meu pai?
Meu pai foi um cometa que veio, deixou sua luz, e foi
embora. Por quê? Porque o Papai do céu... Porque Deus assim quis. Talvez um dia
ele volte; e poderemos ver juntos o Sol, novamente.”